06 fevereiro 2013

Bóra pensar?

Dia desses, li no Facebook um texto que havia sido compartilhado por um dos meus amigos, infelizmente não lembro a autora, nem achei o texto exato, mas versava sobre o trabalho que dá trabalhar e era mais ou menos assim: 
'Alguém questionou uma doceira sobre o valor do cento de docinhos prontos, pois achou o valor caro. 
MUITO caro para um docinho de leite condensado, chocolate, confeitos e pelotines.
A resposta da doceira foi perfeita: 
_Feitos em casa, talvez sejam estes os ingredientes do seu docinho. Mas feitos na minha empresa os seus doces consomem o meu tempo. Dedico tempo para comprar os ingredientes no atacado porque sai bem mais em conta, o atacado não é na esquina da minha casa, ali é a rede tradicional de supermercados, que cobra mais caro pelos seus quatro ingredientes. Não posso ir caminhando até lá, é longe e eu não trarei apenas os ingredientes da sua encomenda, sou uma empresa, tenho outros pedidos, o seu não é filho único. A ida até lá consome a gasolina do meu carro (para nem falar de outros componentes), a passagem do ônibus, o metrô, ou o táxi. Seus docinhos serão feitos com  as horas do meu dia, a chama do meu fogão, a eletricidade que eu pago vai iluminar a noite na cozinha, porque você quer doces fresquinhos no turno da manhã, e a noite eu preciso de lâmpadas para que seus doces fiquem perfeitos, eu preciso enxergar meu trabalho ou os seus docinhos. Eu não posso colocar os docinhos numa sacola de supermercado, precisarei de uma caixa para armazená-los e penso(às vezes eu penso), que você não os queira colocados na caixa gratuita de alvejante do supermercado. 
Ah, ainda têm este tempo que escrevo a sua mensagem. Sim o meu tempo é dinheiro e não, não sou mercenária, menos ainda milionária, acredite, o carteiro perde o cartão no Natal, mas todos os meses as contas chegam na caixa do Correio, nesse aspecto o danado do carteiro é certeiro! Eu não tenho o nome sujo na praça, eu pago todas as contas que chegam na minha caixinha. Pago, com dinheiro proveniente do meu trabalho, aquele de fazer os seus docinhos. 
Eu sou humana, não sou uma máquina, eu não trabalho 24 horas, eu preciso dormir e dar conta de outras tarefas, então o custo do meu trabalho é referente as horas úteis, certo? Não se perca na soma.
Ah lembrei, você ainda quer seus docinhos entregues em casa, para não ter trabalho em buscá-los. 
É justo, muito justo, afinal têm trânsito, está calor, e só para pegá-los vai fácil uma hora do seu bairro até o meu, apesar de sermos vizinhos. Realmente o trânsito está saturado e pagamos caro os nossos impostos... Eu pago, você também não? Ok, você não virá buscá-los, mas eu terei o trabalho de entregá-los, certo? Não! Eu tenho outras encomendas para dar conta, lembra? Precisarei que alguém faça o favor para mim, poxa agora lembrei que esse tipo de favor ninguém faz, vou ter que pagar o entregador, afinal, não vou discutir, é o trabalho dele, e ele também deve ter contas para pagar. 
Você está somando tudo? Soma então, a entrega! E, não pára por aí, você conta que eu prepare os seus doces com higiene, presumo que sim. Aí tem mais uns itens para por na lista, por favor, some as luvas que eu uso, e mais a limpeza da cozinha, pois infelizmente ela não é auto-limpante. Mas juro, é bem limpinha. Limpo bem os cantinhos. Ah! As panelas também estão neste pacote, preciso detergente, esponjas, panos de prato...
Pensando bem, acho até que estou cobrando barato, preciso rever minha tabela! 
Serão quantos docinhos mesmo???'
Acreditem, na íntegra o texto era muito, MUITO melhor e se alguém souber a autora, faço questão de citá-la. O texto original é de Dani Avelino.
Tudo isso para dizer que algumas pessoas tem o artesanato como profissão, como trabalho e entenda que trabalho requer estudo, pesquisa, dedicação, tempo para testar, modelar, moldar, executar, refazer... 
Há investimento em material de qualidade, há cuidados na fotografia bem feita, cuidado em achar um nome criativo, um modelo inovador.  Para nem falar nas burocracias (e valores) que envolvem a legalização profissional. Quem trabalha com arte não está brincando. Não é um passa-tempo, nem é um hobby. É sim, trabalho e trabalho duro. 
Sim, você pode ter o artesanato como passatempo, como lazer, apenas como hobby e você é privilegiado pois há um sem fim de passo a passo gratuitos pela internet, outro tanto de vídeos de técnicas no youtube. Uma penca de revistas gratuitas no Picasa e um universo de imagens no Google (que não significam imagens sem dono). Há cursos de capacitação artesanal gratuitos (veja na prefeitura do seu município, SENAI, SENAC...).
Há espaço para todos! Há muito espaço. Até sobra espaço. Procure o seu espaço. -"ADO, -ADO, cada um no seu quadrado". Lembra disso?
Agora cá entre nós, em segredo, de cantinho, não espere que um profissional, aquele que trabalha(e paga impostos) com o artesanato vá divulgar suas fontes, seus contatos, fornecedores e suas modelagens gratuitamente porque ninguém deu nada a ele. Ele formou uma rede de trabalho e isso não se constrói da noite para o dia. É o mesmo que pedir ao médico que envie a cura de uma doença por e-mail e tudo bem se a mensagem não puder ser única, você aceita que ele a fracione em vários arquivos.  Ou pedir que o dentista faça sua revisão dentária pela webcam.  Ou ainda pedir que o padeiro coloque o pão nosso de cada dia, na mesa, todos os dias e de graça! Tem até graça isso!
Entendam, pode haver docinho mais barato no outro bairro. E talvez haja. Vivemos numa democracia, você têm todo o direito de comprar(ou não). Assim como o vendedor têm direito de vender. Você ainda tem a opção de buscar o que é 'parecidinho' porque a vida nos dá escolhas. Você tem o direito de fazer o que quiser, de procurar um concorrente, de executar melhor e até se tornar um concorrente, se for capaz! Ninguém irá negar o seu mérito.  Você têm direitos.
Mas sinto informá-lo também têm deveres, entre eles respeitar o que têm propriedade.  Pois é, DIREITOS e DEVERES... Deveres anda beirando o desuso, mas ainda não foi abolido da Constituição, diz lá: 'direitos e deveres dos cidadãos'...
Ah, voltando aos docinhos, fazê-los em casa é mais barato. Mas dá trabalho, ahhhhh como dá!  
E não, ainda não inventaram a fórmula de trabalhar sem ter trabalho algum, seria quase a Fórmula do Amor. Olha aí, esta pode ser a sua chance. Invente-a (poxa, isso também dá trabalho). 
E que Nsa. Sra. da Maria Mole, acuda os que só querem moleza da vida e perdoe esta minha brincadeira com a religião.

18 comentários:

Marcinha disse...

Amei...
Te mandei inbox o texto na íntegra e a fonte.
Mas amei teu complemento.
Beijos

A Pata Madrinha disse...

Perfeito aninha!! muito bem escrito, e faz todo sentido do mundo!!
Deveria ser obrigatório antes ver e comparar/comprar os nossos ítens dar uma lida neste texto.
Quem sabe um dia a realidade do Brasil mude e as pessoas comecem a encarar o artesanato como algo de muito valor, diferentes e especial e não sinônimo de algo feito nas coxas, baratinho e quase de graça!
Não se esqueça de por na conta o desprendimento de abrir mão de uma carreira, de um diploma, de uma estabilidade para se fazer algo que se acredita, fazer algo com o coração.
Beijos com esperanças.

Renata Segtowick disse...

Texto perfeito! É o que eu sempre digo: não é o valor do produto que é caro; é que a doceira, o artesão, o publicitário, o ilustrador precisam ganhar dinheiro para pagar suas contas.
As pessoas vivem de seus trabalhos.

Camila Schone disse...

Uau... falou tudo e mais um pouco!
"Num guento mais aquele papo de vc se formou na faculdade e agora não faz nada??" Como não faço nada? eu trabalhooo poooooooooorraa!
As pessoas não vêem isso como um trabalho, somente como um hobby. Por isso, eu e muitas outras pessoas, trabalham o dia inteiro em outro local, e trabalham a noite inteira no ateliê. Se já é difícil mostrar para os familiares que isso é uma profissão, imagine para a classe ignorante da sociedade. As pessoas acham que a faculdade forma o profissional. Forma nada. A pessoa só vira um profissional se estuda, se tem dedicação, se tem empenho, se tem amor.. De "meios profissionais" o mundo está cheio.
Além de tudo, o desgaste físico deste tipo de trabalho. O povo acha que é só ficar sentadona no sofá e trabalhar.. pffff.
As vezes tenho vontade de gritarrrr.

Camila Pontes disse...

Perfeito!

Tinha visto o texto na íntegra no Face, mas seu complemento arrematou a ideia toda. ;)

Clau Atelier disse...

Adorei Ana.
É bem isso mesmo ....
Bjs

Gislene Ellery disse...

Ameeeeeeeeeeeeiiiiiii!!!!!!!!!

Juliana Kimura disse...

Perfeeeeitoooo!

Adorei o texto e o que você escreveu Ana!

Sempre admirei e vou continuar admirando e dando valor aos trabalhos manuais! São feitos com amor e carinho (pelo menos a maioria deles, rs) e isso, não tem dinheiro que pague!

Beijocas

Elô Bueno disse...

Adorei e assino embaixo, Aninha!
beijos

Cibele Studart disse...

Opa, bom demais!
Lembrei que há muita gente que pede ao veterinário para "dar uma olhadinha" no au-au sem chamar de consulta para não ter de pagar, e por isso numa clinica aqui perto tinha impresso: consulta R$ 50,00; "só uma olhadinha" R$ 100,00. Nesse caso, melhor pagar consulta, né.... e a espertinha acaba botando a mão no bolso pq é o jeito. Ah tá, o veterinário estudou na faculdade mas.... e os artesão não tiveram de aprender tb de alguma forma??? Minha amiga Gi Guimarães (acho q vc a conhece pelo Flickr) faz lembrancinhas mas ela fez faculdade de desenho gráfico, e aí?!
Amei o papo, que tal uma conversa mais competa ao vivo? Posso começar a preparar um casquinho de carangueijo e botar o espumante pra gelar?? ;)

Rafa disse...

Como sempre arrebentou no texto, Aninha !!! Já disse que gosto muito da maneira como escreve?

As pessoas não só desvalorizam o trabalho do artesão, como não pensam que por não "industrial" é MAIS penoso ainda que as coisas que eles compram no R$1.99.

E isso de dar uma olhadinha no veterinário, é de praxe quando você diz que é advogada, até evito falar...não posso estar em salão de beleza, festa de criança, sala de espera de médico que vem alguém com: "minha cunhada/tia/avó/etc tem um ex-marido que não paga pensão e blá-blá-blá"
E o pior é que na maioria das vezes respondo, pra não ser grossa, mas passo por banana, afinal estudei e muito :(

Enfim...que esse texto sirva pra aclarar um pouco as idéias dos seres menos desprovidos de massa cerebral HAHAHAHA

Beijão flor

Isabella Morais disse...

Tudo tem seu preço né?! EU dou muito valor para um artesanato BEM FEITO pois sabemos que tem muita porcaria tb por aí..Pago o preço justo por uma coisa justa.

Quem trabalha com artesanato sabe o quanto tudo é muito custoso para uma peça ficar pronta, ainda mais quando trabalhamos sozinhas.

Texto muito bom!

Bjim!

Luciana. disse...

Oi Aninha! Amei o texto e tudo o que você disse.
Bjos, Lú.

♥ Nia disse...

Adorei! E assino em baixo! As pessoas esquecem que trabalho final nao é apenas ao custo da matéria-prima mas todo o processo! Obrigada por partilhares Aninha :)

Andrize DuARTE disse...

A D O R E I !!! Texto maravilhoso!

Keila disse...

Amei! Falou tudo...
Tudo que nós artesãs gostaríamos de dizer!
Parabéns.

Luiza Cavalcante disse...

Corretíssima!! Amei! Você fala por muitos!!

Elaine Knauer disse...

Grite!!! Rsrs...não tenho nada a ver com a sua vida e nem te conheço para lhe pedir q aceite o meu conselho: não se dê ao trabalho de fazer qualquer coisa para mostrar para os outros...não vale a pena! Vivi muitos anos assim e parei! De verdade! Preciso de saúde física e mental para me dedicar naquilo q amo fazer. Tenho certeza q vc é capaz!